Semana Mundial do Aleitamento Materno

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Foto: Mari Ignatios (Mostra: Tenho Peito/Semana Mundial do Aleitamento Materno 2016 – Daiane de Souza Santos)

Hoje, dia 1 de agosto, começa a Semana Mundial de Aleitamento Materno (https://www.facebook.com/aleitamentomaternosaocarlos). A Semana Mundial ocorre em 120 Países e, oficialmente, é celebrada de 1 a 7 de agosto. No Brasil, o Ministério da Saúde coordena a Semana Mundial de Aleitamento Materno desde 1999. E São Carlos não está fora dessa.

Na cidade serão propostas atividades em agosto, setembro e outubro com articulação de várias instituições, iniciativas e profissionais em prol da conscientização, formação e incentivo ao aleitamento materno, considerando os benefícios à saúde da criança no sentido amplo, tanto nos aspectos nutricionais, como na formação de vínculos na relação mãe-bebê, bem como os benefícios à saúde da mulher, tanto do ponto de vista físico como também afetivo. Estas atividades incluem ações com a família, cuidadores e profissionais que atuam neste âmbito.

A Semana Mundial do Aleitamento Materno 2016 traz um tema amplo e que vem de encontro com a situação atual do mundo: o desenvolvimento sustentável. O tema exige uma reflexão que ultrapassa os limites da questão ecológica da amamentação. Amamentar é reduzir morbidades, mortalidade, desigualdades, violência, danos ambientais. Amamentar é promover a vida e a saúde e melhorar sua qualidade, é intensificar as relações sociais, é um resgate cultural da condição humana, é segurança alimentar e nutricional, é reduzir impactos ambientais, é sustentável.

E já que estamos nesta semana, o assunto não poderia ser outro senão amamentação. A importância da amamentação e os benefícios que trazem à mamãe e ao bebê são indiscutíveis. Mas quando o assunto é até quando amamentar um bebê ainda é um fator de dúvida para muitas mamães.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e até os dois anos com alimentos complementares. A enfermeira obstetra Márcia Regina Cangiani Fabbro, docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), conta pra gente mais sobre esta dúvida de muitas mães e sobre outros assuntos ligados à amamentação.

Mamapolvo: Márcia, porque é importante para o bebê receber o leite materno exclusivo até os seis meses?

Márcia: A amamentação exclusiva nos primeiros seis meses é algo mais interiorizado nas mulheres. A OMS preconiza o Aleitamento Materno Exclusivo (AME) por seis meses mas  52% dos bebês são amamentados exclusivamente nos primeiros seis meses e 48% dos bebês recebem precocemente outros líquidos, o que não seria necessário e interfere no fator protetor do leite materno. Também está nesta porcentagem, bebês desmamados ou que recebem outros alimentos antes dos seis meses.
Os benefícios do aleitamento materno até os seis meses estão muito sedimentados na literatura. O bebê recebe logo na primeira mamada e nos primeiros dias de vida o colostro, que tem uma quantidade enorme de anticorpos, e o leite materno continua com esta produção imunológica e nutricional para o bebê no decorrer dos seis meses e depois destes. Os estudos apontam que quando a mãe introduz líquidos antes dos seis meses de vida do bebê, este fator imune diminui. Com o leite materno, a maioria das crianças ganham peso e têm um desenvolvimento neuromotor adequado. A criança que consome exclusivamente o leite materno, não tem só o desenvolvimento nutricional, mas também neurológico, além de outras vantagens de proteção contra doenças infecciosas. Bebês amamentados no peito não ficam doentes ou, se ficam, não são doenças graves ou saram logo. As crianças com mais de seis meses, por exemplo, quando ficam doentes, podem deixar de comer, mas dificilmente deixam de mamar.

Mamapolvo: Márcia, quais as principais dificuldades de se amamentar apontada pelas mães?

Márcia: Encontramos problemas na sociedade para que a mulher amamente. As palavras chaves para que a mulher amamente são: apoio e informação. A mulher tem que acreditar que ela pode nutrir esta criança com seu próprio leite. Não é a quantidade de leite que importa, o parâmetro não é este, e sim o ganho de peso e o desenvolvimento neurológico. A sociedade criou o “leite fraco”, o que não existe, e também criou a determinação de que a gente tem que medir tudo que vai para o bebê, exemplos: quanto mama, quanto faz de xixi ou de cocô. E esta tentativa de controlar não tem nada a ver com amamentação. Costumamos dizer que a fase da amamentação é um período de total descontrole. O bebê vai mamar a hora que quiser e quanto desejar. O que deixa a mulher numa situação de descontrole da situação e vulnerável e, nós mulheres, historicamente, queremos ter controle das situações. Então isso cria uma ansiedade muito grande. A mulher passa os seis meses de aleitamento com uma série de dificuldades iniciando na primeira semana com os problemas que são comuns como ingurgitamento mamário, mastite,  fissuras mamilares (rachaduras no bico do peito)  e no decorrer dos seis meses, com as crises lactacionais transitórias, que são aquelas em que o bebê faz um pico de crescimento e pede para mamar mais e isso acontece quase que mensalmente. O bebê que está mamando com intervalos maiores em relação a alguns meses antes, de repente volta a mamar com intervalos menores, e a mãe olha para isso como “meu leite não está sustentando”. Ela não entende porque o bebê passa a acordar mais vezes ou a mamar mais vezes durante o dia. Isto é um período transitório. A gente sabe que se ela deixar o bebê mamar o quanto está precisando, ela vai produzir mais, ou seja a quantidade adequada para o crescimento dele. O que o bebê está querendo dizer é que ele precisa de mais leite e para ela produzir mais, ele precisa mamar mais vezes (lembrando a fisiologia da lactação – quanto mais o bebê mamar, mais leite é produzido), pois ele está crescendo e no momento está precisando de maior quantidade para seu desenvolvimento. E esta linguagem, muitas vezes, não é compreendida. Além destes problemas, tem a volta ao trabalho e a falta de apoio. Um exemplo são as creches, que em muitos casos, não aceitam o leite materno para ser dado a um bebê ou não sabem oferecer o leite em copinho para não introduzir mamadeira (outra prática que prejudica a duração da amamentação). A gente não tem isso. É uma utopia. Não temos apoio das unidades de atendimento à criança. Não temos este apoio institucional e, em muitos casos, nem da família ou do companheiro. Em alguns casos, o companheiro não entende a amamentação, não apoia, só percebe como uma exclusão dele deste processo, pois a mama tem esta representação dúbia; ela é sexual, mas ela também é nutricional e emocional. Quando digo emocional é no sentido de que o bebê não só mama para se nutrir, mas também para se acalmar.
Tem uma questão que me é muito clara e que vi e vejo isto em mulheres que optam pela amamentação prolongada, que é a nutrição emocional. Esta criança está cansada ou irritada da escola ou cansada, e este peito a acalma. Depois de alguns minutos a própria mãe também se acalma por conta dos hormônios liberados e em pouco tempo ambos  estão em “outro mundo”.

Mamapolvo: Existe alguma fase em que o leite materno não é mais benéfico nutricionalmente para o bebê?

Márcia: Não. O leite é sempre benéfico para o bebê/criança de qualquer idade.
Após o primeiro ano de vida, o leite materno não é uma “aguinha sem benefícios”, como acreditam algumas pessoas. Os dados da Unicef apontam que no segundo ano de vida, 500 ml de leite materno fornecem 95% das necessidades de vitamina C, 45% das necessidades de vitamina A, 38% das necessidades de proteína e 31% do total de energia que uma criança precisa diariamente. São falsas duas ideias na amamentação prolongada (após um ano de vida do bebê), a primeira de que não tem benefícios nutricionais e a segunda de que esta criança vai ficar materno-dependente. Este é outro discurso bastante complicado. Tem uma linha da psicanálise que diz isso, que a criança vai ficar dependente da mãe. A outra linha dos adeptos do aleitamento materno, fala exatamente o contrário. Para reforçar esta última corrente, temos comparações, feitas por antropólogos, dos humanos e de outros mamíferos. Eles observam que os outros mamíferos amamentam até quadruplicar o peso de seus filhotes. Comparando com os humanos, os bebês deveriam ser amamentados até os três ou quatro anos. A gente é uma sociedade imediatista, do querer tudo muito rápido: mamar rápido, desmamar rápido, sarar rápido, etc. E quando o assunto é amamentação, rapidez não é algo considerado importante.

Mamapolvo: Em quais situações se deve complementar ou substituir o leite materno antes dos seis meses?

Márcia: Somente quando há perda considerável de peso. Não podemos falar de um peso ideal porque para cada faixa etária tem um peso. A criança deve ser acompanhada mensalmente por um profissional da saúde (nas Unidades de Saúde da Família -USF – as enfermeiras fazem o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento dos bebes) e seu crescimento (peso e altura) é colocado num gráfico que forma uma curva, se o bebê ficar dentro desta curva está crescendo e se desenvolvendo bem.

Mamapolvo: Segundo a OMS, o aleitamento materno deve acontecer pelo menos até os dois anos ou até ser prazeroso para mamãe e criança. Pela sua experiência, quando as mães alegam que a amamentação deixou de ser prazerosa?

Márcia: As mães acabam deixando o aleitamento pois não sabem lidar com o ingurgitamento ou com a mastite ou com o bico rachado, ou por acreditar que o leite é fraco ou que tem pouca quantidade. As solicitações constantes dos bebês são também um desgaste grande. A falta de apoio também é algo importante no desmame.
Fadiga, estresse e situações de conflito interferem no aleitamento materno. Tem também a situação de cobrar desta mulher por amamentar seu filho, e algumas não querem amamentar, pois diversas questões. Também é um conflito. Não pode haver um padrão; o processo de até quando amamentar é particular, é da mãe, do pai e do bebê. As pessoas tem que respeitar isso.

Mamapolvo: Quando desmamar?

Márcia: O desmame é uma questão a ser resolvida a três: mãe, bebê e pai. A amamentação é um processo que tem que ser prazeroso para os três.
Existem muitas situações em que a mãe decide pelo desmame. Exemplo, ela está cansada por acordar várias vezes à noite e está sendo demais pra ela. Tem casos que a mãe quer amamentar, mas o bebê recusa e não tem explicação, ele simplesmente não quer.
O segredo é se olhar para dentro e saber que será uma decisão minha de continuar amamentando ou desmamar. Lembrar sempre que a amamentação deve ser prazerosa para a mãe, o bebê e o companheiro dela.

Mamapolvo: Se a mãe decidir desmamar, como fazer uma desmame mais gentil para o bebê?

Márcia: O bebê pode não querer mais mamar. E pronto, houve um desmame. A mãe decide conjuntamente com o pai que é hora de desmamar por motivos particulares, se esta for a vontade do casal, deve-se fazer o desmame gradual. As dicas são: primeira coisa não fazer desmame abrupto, não dormir uma semana fora e deixar a criança uma semana longe, ou colocar pimenta, gengibre ou qualquer outra coisa nas mamas. O desmame abrupto é muito ruim para a criança, causa traumas. Além disso, a interrupção do aleitamento de forma abrupta, pode causar ingurgitamento  ou mastite nesta mãe. É ruim para a mãe e para o bebê.
Desmamar uma criança maior pode ser mais fácil, pois é possível conversar com ela. Se a decisão é desmamar (independente da idade do bebê/criança), nunca deve-se recusar o peito, mas também não oferecer. O aconselhável é entrar em acordo com o bebê onde e quando ele pode amamentar, conversando com ele. Procurar diminuir a duração da mamada, com intervalos curtos, e oferecer um carinho, uma brincadeira ou atividade que ele gosta. As mamadas antes de dormir são as últimas a serem tiradas. Deve-se evitar lugares que são favoritos do bebê para mamar. Fazer atividades ou ações gostosas que reforcem ao bebê que você está deixando de amamentá-lo, mas não de amá-lo. Pelo contrário, você o ama tanto quanto antes. Este processo gradual de desmame acontece sem traumas. Muitas vezes a mãe se sente culpada, quer desmamar, mas não consegue fazer isso de forma gradual e sem traumas. Precisa ser algo que ela esteja pronta e que não seja traumático para o bebê.

Mamapolvo: Quando e como fazer a introdução alimentar?

Márcia: A introdução alimentar também precisa ser gradual e depois dos seis meses de vida do bebê. Pode ser por papinhas ou alimentos em pedaço. Se a mãe voltar ao trabalho e ficar longo período longe do bebê, ela pode tirar leite e deixar para que alguém dê utilizando  o copinho.

Mamapolvo: Quando usar a bombinha tira-leite?
Márcia: A bombinha manual chamada Tira-Leite (aquela que encontramos nas farmácias no Brasil) sempre deve ser evitada, pois machuca muito o mamilo.
Outras bombinhas são super bem-vindas para tirar leite e armazenar, para quem doa leite ou também para alívio de mamas muito cheias. Essas geralmente são importadas. Podem ser manual ou elétricas.
Quando a mulher estiver com ingurgitamento ou com bico rachado, o ideal é fazer ordenha manual das mamas, ao invés de usar a bombinha.
Para quem vai armazenar o leite para outra pessoa dar ao bebê, lembrar de armazenar em frasco adequado, identificado com data e em porções pequenas que o bebê vai mamar de uma vez. Se for no freezer, guardar por no máximo 15 dias e na geladeira por 24 horas. Se o leite for descongelado e não esteve em contato com a boquinha do bebê, pode ser guardado por mais 12 horas na geladeira. Não é difícil, são cuidados necessários quando se manipula alimento.
Lembrando que, para quem tem vontade de doar, quanto mais se tira mais se tem. Esta é a fisiologia da lactação, quanto mais o bebê mama ou a mãe ordenhar manualmente ou com bombas adequadas, mais ela vai produzir. Tirando mais, ela vai ter mais e tem condições de doar para o Banco de Leite.

Mais informações sobre o Banco de Leite de São Carlos e como ser doadora, o site é https://www.santacasasaocarlos.com.br/BancoDeLeite.

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